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Entrevista 'A qualidade do crescimento vai piorar' com Fernando Montero
ENTREVISTAS - segunda-feira, 23 de maio de 2005 15:32 por Send Yahoo Messanger message to author News Cafeicultura
Valor Econômico Denise Neumann e Raquel Salgado De São Paulo - País subestima a retração no interior e há três trimestres cresce abaixo do potencial, diz Montero - Fernando Montero, da Convenção: outra hipótese para explicar a desaceleração é a reversão do ciclo da renda agrícola
De tempos em tempos, a economia dá sinais ambíguos, como agora. Na média da indústria, a produção parou de subir, mas as vendas do comércio ainda crescem, enquanto a confiança do consumidor despencou em maio. Para entender o que está acontecendo é preciso desagregar todos os dados, separar capital e interior, consumo e investimento, venda doméstica e exportação. Aí os sinais ficam um pouco mais claros, diz o economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero.

A prática de esmiuçar dados foi reforçada nos anos em que Montero esteve na secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda. E desta experiência vem o aviso: o Banco Central e muitos analistas estão subestimando a desaceleração que vem do interior. A quebra de safra e os menores ganhos na agricultura já puxaram para baixo o investimento, mas também vão chegar ao consumo.

O Brasil, avalia Montero, está, pelo terceiro trimestre consecutivo, crescendo abaixo do seu potencial: pouco mais de 3,0% em termos anualizados. 'E a qualidade do crescimento vai ser cada vez pior', adverte. Para o fim do ano, avalia, o gasto público vai aumentar e não há sinais de recuperação do investimento. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: Olhando os indicadores atuais, é possível saber aonde a economia está?

Fernando Montero: Para analisar a atividade devemos partir dos fatos. A produção estabilizou nos últimos seis meses e a balança comercial melhorou, em termos físicos. O volume de exportações líquidas melhorou. Abril tem sinais ambíguos, nem muito claros de crescimento, nem de queda. Enfim, não há nenhum sinal de mudança de tendência da indústria em abril. A produção estabilizou num patamar muito alto, mas estabilizou. Então, estamos exportando uma fatia maior de uma produção igual. E também há sinais, mais controversos, de que a economia teria estocado acima do desejado. De qualquer forma, os sinais são os seguintes: uma produção estabilizada de seis meses para cá, uma balança comercial maior em termos físicos e alguns sinais de aumento de estoque. Tudo isso significa que a fatia que foi para o mercado interno caiu.

Valor: Por que essa queda não aparece nos indicadores de comércio nem de inflação?

Montero: Tudo indica que a absorção interna está caindo mais nos investimentos do que nos bens de consumo. A gente vê isso olhando para a produção de bens de consumo. Entre o quarto trimestre do ano passado e o primeiro deste ano, em termos dessazonalizados, a produção de duráveis avançou 4,92% e a de não-duráveis e semiduráveis, 3,18%. Olhando para a pesquisa mensal de comércio, também se vê mais consumo. Cresce muito menos, 0,6%, mas esse dado vem depois de um dezembro muito bom. O pessoal do comércio e da indústria de consumo discute mais a possibilidade de crescimento menor no futuro.

Valor: Mas os indicadores de confiança do consumidor também pioraram...

Fernando: Só agora em maio a confiança do consumidor teve uma queda mais forte depois de crescer muito e cair em doses homeopáticas. Mas o que move o consumo é o nível de confiança. Até abril, o nível estava muito alto. E o crédito continua crescendo. Assim, temos confiança num nível alto, massa e emprego crescendo. Mas como nos dados agregados se vê uma desaceleração, força-se tudo o que é dado para ser encaixado num cenário de desaceleração

Valor: Você vê reflexos desse consumo na inflação?

Montero: Olhando para os índices de preços ao consumidor, seus núcleos, o acumulado em doze meses, os livres, os administrados, os tradables e os non tradables, se vê um quadro que não tranqüiliza. Temos uma desaceleração no atacado, mas isso vai chegar amortecido ao varejo. Não é nada muito sério.

Valor: O que puxou a desaceleração do conjunto da indústria?

Montero: O investimento, embora esteja sendo muito difícil estimá-lo com base nos indicadores de construção civil e do consumo aparente de máquinas e equipamentos. Além disso, os bens intermediários caíram 1,7% no primeiro trimestre em relação ao último de 2004 e eles são mais da de da produção industrial. A queda dos bens de capital não chega a ser tão forte nesse período, pois parcela da produção foi exportada.

Valor: Por que os intermediários estão caindo se a produção dos bens finais, que compra intermediários, não está em queda? Pode ser sinal de formação de estoques?

Montero: É preciso olhar os dados com cautela e de forma desagregada. No aço, há diferença entre a Gerdau e a Belgo Mineira e a CSN. As duas primeiras fazem vergalhão para a construção civil e a CSN faz chapa de aço para automóveis. Ela está feliz e as duas chorando. Aço está crescendo em duráveis, mas despencando em construção civil.

Valor: Então em algum momento os bons indicadores de consumo vão se refletir em alta de bens intermediários e de capital?

Montero: Quando se olha para a demanda final, é muito tentador pensar que o Banco Central tem razão. Eles já tiveram razão com os dados de março, quando a indústria e o varejo mostraram recuperação boa. Como a demanda por bens de consumo vai bem e construção civil pode estar melhor do que os insumos estão mostrando, por que o Banco Central não tem razão? Mas há um outra hipótese para explicar a desaceleração. É a reversão do ciclo da renda agrícola. Tudo o que envolve a agricultura, seja investimento, sejam insumos, tratores, colheitadeiras, agrotóxicos, fertilizantes produzidos ou importados está despencando a taxas altíssimas. É um setor que está cortando compras e sobre o qual gravita toda uma economia, especialmente o interior. O BC não está vendo, mas acho que essa perda de consumo vai chegar aqui. Esse sinal é mais confuso. Na pesquisa mensal de comércio do IBGE, por regiões, a reversão fica clara.

Valor: Como ela aparece?

O BC não está vendo, mas a perda de consumo do interior agrícola vai chegar ao resto da economia

Montero: O crescimento do varejo entre março do ano passado e março de 2005 foi de 6,26% para o conjunto do Brasil. No Rio Grande do Sul, houve queda de 0,70%, em Santa Catarina, alta de 1,3% e de 2,62% no Paraná. Os três Estados que pioram seu desempenho foram os do Sul. No acumulado do trimestre, a produção da indústria subiu 3,9%, enquanto a do Rio Grande do Sul cedeu 3,7%. A arrecadação de ICMS também arrefeceu. No primeiro trimestre, ela foi 17% maior em São Paulo e 23% em Minas Gerais, em dados nominais. No Rio Grande do Sul, o crescimento foi de 9,6%. Em Goiás, 9,3%.

Valor: Para entender o que ocorre, então, é preciso dividir o Brasil em vários pedacinhos e setores?

Montero: Exatamente. E o interior não está mais tão dinâmico. Mas o que depende de cana e café tem desempenhado positivamente, há um movimento heterogêneo. Há um ano, por exemplo, São Paulo estava crescendo dentro da média das regiões metropolitanas e o interior tinha acelerado muito mais. São Paulo passou a liderar o processo de criação de empregos formais, tanto na capital, quanto no interior, que não sofreu muito.

Valor: Estaríamos subestimando então o efeito da perda de safra agrícola na economia?

Montero: O interior não poupa em banco, a renda foi investida em terras, tratores, carros. De seis meses pra cá a festa acabou. Tenho a impressão de que nos últimos dois meses a situação da renda melhorou, mas o clima, que afeta a propensão a gastos, mudou muito. O interior não vai continuar a consumir picapes e DVDs. E se isso realmente estiver explicando a desaceleração mais forte de intermediários e máquinas agrícolas, isso tende a se alastrar. Temos, enfim, fundamentos que podem estar dizendo que a desaceleração veio muito mais pelo investimento do que pelo consumo. Podemos discutir porque desacelerou e como desacelerou, mas o fato é que a economia arrefeceu. Nossa expectativa é uma das mais otimistas para o PIB do primeiro trimestre: 0,7%. Isso significaria que a economia está crescendo abaixo de 3% em termos anualizados. E pelo terceiro trimestre consecutivo ela evoluiu abaixo do PIB potencial.

Valor: E por que o BC insiste em subir os juros? O que a autoridade monetária está vendo?

Montero: Olhando para trás é fácil entender a posição do BC. Com todas as agregações do IPCA pressionadas, o acumulado em 12 meses batendo 8%, uma apertadíssima, o BC pensou: quero sinais mais forte para ver essa queda. Mas isso é uma questão de tempo. O câmbio está finalmente aparecendo na inflação, como mostram os preços ao atacado. O BC não aumentou a taxa de juros por conta das expectativas do mercado. A inflação está vindo sistematicamente acima do esperado pelo mercado, que corrige as expectativas de curto prazo e com isso piora a previsão do IPCA para o ano.

Valor: Além do IPCA e dos núcleos, o que mais pesou na decisão do BC?

Montero: Só consigo ver isso: inflação corrente. Em fevereiro, parecia que o BC estava se antecipando a esse cenário com sinais de desaceleração. A única coisa que mudou do final de fevereiro para cá foram dois IPCAs ruins. Não consigo ver outra coisa. O PIB vai andar de lado pelo terceiro trimestre, o nível de atividade desacelerou.

Valor: A queda do investimento está concentrada na agricultura? Há sinais de que a indústria esteja segurando investimento?

Montero: Pelo que tenho ouvido, até agora ninguém suspendeu nada, mas quem pode adiar, adia. Faz todo sentido o adiamento. Um investimento precisa de preço e de perspectiva de crescimento. E se você olha para o mercado interno e vê essa taxa de juros que ninguém sabe para onde vai, vê o câmbio despencando e começa a questionar o crescimento no ano é natural que se adie investimentos. Mas isso me parece muito mais um risco para frente do que um dado observado até agora.

Valor: A economia vai desacelerar mais?

Montero: Ainda não temos isso muito claro. Por quê? Porque vamos ter o componente fiscal puxando a economia a partir de agora. É o pior drive. Temos um primário acumulado em 4,83%. O governo diz que vai para 4,1%, 4,2%, 4,3% do PIB. A receita está crescendo mais do que o PIB e os gastos vão crescer mais do que a receita, pois é isso que um primário menor significa. O gasto público seja direto ou por transferência, mais o crédito, significa consumo.

Valor: É isso que segura a expectativa de 3,5% para o PIB de 2005?

Montero: O fiscal vai ser expansionista, o crédito consignado ainda tem gás, porém, essa reversão do ciclo agrícola é muito forte e vai se alastrar. E não é só o efeito direto no PIB agrícola, que não vai perder tanto assim, pois outras culturas estão indo bem. São muito mais importantes os efeitos sobre confiança, crédito e consumo. Mas a economia não vai despencar porque há o driver fiscal e o crédito. O que significa que a qualidade do crescimento vai ser cada vez pior. É muito diferente ter uma economia que iria crescer 4%, com uma demanda doméstica que avançaria 5%, do que um PIB que sobe 3% com demanda interna 2,5% maior.

Valor: Por onde vem a queda na expectativa do crescimento da demanda interna?

Montero: Até agora, pelo investimento. Só que o consumo também vai desacelerar, mas muito menos do que se imaginaria, inclusive pelos efeitos defasados da política monetária, que serão menos intensos. Pode ter uma retração mais forte no interior, com um potencial de fazer um grande estrago no PIB. A menor compra de tratores, fertilizantes, colheitadeiras, vai afetar o resto do país, mas o efeito demora para chegar em São Paulo.







 
Rafael Branco Peres conta como o grupo tornou-se o maior exportador de café gourmet do País
ENTREVISTAS - quinta-feira, 19 de maio de 2005 23:04 por Send Yahoo Messanger message to author News Cafeicultura
Forbes Brasil Por ALEXANDRE INACIO - Prazer supera o hábito -Rafael Branco Peres conta como o grupo tornou-se o maior exportador de café gourmet do País - O tradicional cafezinho já não é mais encarado como antigamente. O consumo do café, internacionalmente conhecido por ser um hábito do povo brasileiro, está se transformando em um prazer. Pesquisas mostram que 79% das pessoas entrevistadas em 2003 diziam beber café por prazer. Um ano depois, o percentual saltou para 89%. E as perspectivas para o mercado de cafés de alto padrão são otimistas.

O grupo Branco Peres, dono da marca Café do Centro, é um dos que mais aposta no segmento. A empresa está entre as líderes no fornecimento de cafés gourmets para o mercado interno, com presença em grandes redes de cafeterias, hotéis e restaurantes. Além disso, o grupo acabou de realizar a maior exportação de café gourmet do Brasil.

Nesta entrevista, Rafael Branco Peres, sócio-diretor do grupo, conta como ele e o sócio, seu primo, Rodrigo Branco Peres, analisam o crescimento do mercado interno e fala das expectativas da empresa para o segmento de cafés de alto padrão gastronômico.

Por que os brasileiros estão consumindo mais café de qualidade?

É um processo natural, pois quanto mais qualidade tem uma xícara de café, maior será seu consumo. Observe os escandinavos, maiores consumidores de café per capita do planeta [11 kg/habitante]. A matéria-prima exportada para aqueles países é da variedade arábica/tipo 2, ou seja, um café de qualidade indiscutível. O mesmo acontece na Alemanha, Itália e França [8 kg/habitante]. Aqui no Brasil, em decorrência da melhoria da qualidade, nosso consumo per capita vem subindo ano após ano. Há 5 anos era de 2, 90 kg/habitante e hoje já estamos consumindo 4 kg de café por ano. Ainda assim, por sermos o maior produtor do mundo e o segundo maior consumidor em volume, a demanda por cafés gourmets ainda é pequena. Consumimos aproximadamente 500 mil sacas de 60 quilos por ano, apenas 3% do consumo interno. Ainda é pouco, mas há 5 anos não chegava a 1%.

O brasileiro está ficando mais exigente no que se refere a café. Como você percebe essa cobrança maior do consumidor?

O café é como o vinho. Não existe o melhor vinho do mundo. O que há, na verdade, é um mundo de sabores, aromas e sensações inimagináveis. Com o café não é diferente, principalmente quando o assunto é Brasil. Em nosso território, conseguimos cultivar todas as bebidas do mundo, mas não tiramos proveito disso. Permanecemos com a idéia de vender commodity e são poucas as iniciativas de explorar esse potencial. O consumidor brasileiro tem a opção de comprar o tipo de café gourmet que mais lhe agrada e acredito que esse cenário já está mudando, com empresas oferecendo essa variedade, tanto para o mercado interno quanto para o externo.

Como vocês analisam o aumento do consumo de café de alta qualidade no Brasil?

É a única saída para todo o setor. Não só para a indústria de café, mas principalmente para os produtores e exportadores. Ainda temos um mercado em formação e que cresce 15% ao ano. Engana-se quem acha que o consumidor compra só pelo 'preço' e já ficou mais do que provado que preço baixo não aumenta o consumo de café. O consumidor brasileiro está cada vez mais familiarizado com o mundo do café. Este consumidor quer saber a procedência dos grãos, se o café é gourmet, se tem certificação e tudo mais. As empresas de café devem investir em tecnologia, oferecer mais produtos, criar novas demandas como bebidas geladas à base de café e cappuccinos. Além dessas exigências, temos que manter o padrão do nosso café, o que não é nada fácil. O paladar do consumidor sabe quando uma marca muda a composição do produto e, por isso, manter um padrão sempre é fundamental. A escolha dos lotes é um trabalho árduo, pois não se trata apenas da origem. Temos quatro atributos fundamentais para a caracterização das origens: aroma, sabor, acidez e corpo. Além de utilizarmos toda a nossa estrutura de classificadores para a análise dos lotes de café, temos o auxílio do Instituto de Tecnologia e Alimentos [ITAL], órgão filiado à Unicamp que certifica sensorialmente se todos os atributos que desejamos estão de acordo com o padrão definido pela empresa. Estas informações constam em todas as nossas embalagens e fornecem ao consumidor todas as informações necessárias para que ele possa escolher o café que deseja tomar e mesmo saber o que está dentro das embalagens.

Como é a atuação do Café do Centro no fornecimento para o mercado interno?

O posicionamento da nossa marca está voltado para a produção de cafés gourmets, atendendo principalmente ao segmento de 'food service', isso é, cafeterias, hotéis, restaurantes e bares. Entre nossos clientes mais conhecidos estão os restaurantes D. O. M. , Parigi, Forneria San Paolo, Gero Iguatemi, Charlô Joquéi, Família Mancini, A Bela Sintra, JAMWarehouse, Na Kombi e outros. Entre as redes de cafeterias fornecemos para Estação 5 e Rei do Mate, além dos hotéis Grand Hyatt e Rede Rede Accor. São mais de 1, 2 mil pontos de consumo que compram os mais de 20 tipos de café gourmet.

Quais são as estratégias da empresa para os próximos cinco anos?

Além de continuarmos focados em produzir cafés de altíssima qualidade no mercado interno, estamos buscando outros mercados. Há um ano e meio iniciamos nossas exportações para os mercados europeu e asiático com destaque para a França e o Japão. Exportar café industrializado é um desafio imenso, mas temos qualidade e somos competitivos. Além dos cafés especiais exportamos também cappuccinos, café orgânico e café em sachês para máquinas de café expresso. Há poucas semanas, realizamos a maior exportação de café gourmet do País. O mercado externo tem grande potencial para os cafés brasileiros e pretendemos cada vez mais mostrar que o Brasil é o único a oferecer tamanha diversidade de grãos especiais.

Qual o segredo para ser competitivo no exterior?

Conseguir agregar qualidade e tecnologia. Ou seja, não basta ter o melhor café. É preciso investir em toda a unidade industrial, do torrador ao empacotamento, passando pelo moinho, o tipo de embalagem, enfim, a apresentação do produto final deve ser perfeita. Não basta ter um tipo de embalagem é preciso oferecer muitas opções. Isso custa muito, mas é o que o mercado procura e precisamos atender. E para atender a esse consumidor exigente participaremos de feiras no Japão e na Holanda. Além disso, patrocinamos um livro chamado 'Guia do Apreciador do Café'e recentemente nos associamos a uma fazenda que, além de produzir cafés premiados internacionalmente, tem enorme compromisso social e ambiental.







 
Páginas Verdes: O negócio é plantar
ENTREVISTAS - sexta-feira, 15 de abril de 2005 13:21 por Send Yahoo Messanger message to author News Cafeicultura
JB ONLINE Hiram Firmino agri - Entrevista com Carlos Aguiar, presidente da Abraf - O agronegócio, no qual cada dia mais se incluem as florestas plantadas de eucalipto e pinus, já respondem por 32% do Produto Interno Bruto [PIB] brasileiro. Atualmente, mais de cinco milhões de hectares do território nacional são cobertas por florestas plantadas de maneira ecológica com essa finalidade: fazer o país exportar US$ 2,6 bilhões só em papel e celulose, como aconteceu em 2004, o dobro do que conseguiu o café. E criar 100 mil empregos, 20% a mais que o que empregam as montadoras de automóveis.

Disputando um comércio global que gira em torno de R$ 300 bilhões, com a maioria dos países desenvolvidos sem ter mais um palmo de terra para plantar, nem o sol, nem a água nem o clima que temos, o Brasil só não será o maior exportador mundial de papel e celulose se não quiser. Basta ser sustentável, como o setor se tornou. Ter o apoio, a parceria e a não complicação regulatória do governo. E saber comunicar isso de maneira proativa à sociedade, às ongs ambientalistas e aos outros formadores de opinião, porque ainda pesa muito o preconceito arraigado contra o eucalipto. São algumas das considerações feitas nesta entrevista pelo presidente da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas [Abraf], Carlos Aguiar, que também preside a Aracruz Celulose.

JB ECOLÓGICO - Por que a sociedade brasileira ainda não enxerga as florestas plantadas como um bem econômico, social e ambiental?

CARLOS AGUIAR - Porque não sabemos comunicar. Este é o nosso maior desafio, depois que conseguimos a união associativa do setor. Fazer a sociedade entender que, por detrás da floresta plantada, tem toda uma cadeia produtiva, que são as siderúrgicas movidas por carvão vegetal, em substituição ao carvão mineral, que é mais poluente. São as fábricas de papel e celulose, as indústrias de placas e móveis que empregam milhares de pessoas.

JB - E questão se o eucalipto é prejudicial ou não ao meio ambiente?

CA - Graças ao debate, hoje se sabe que plantar uma floresta de eucalipto não seca a terra, como se imaginava antigamente. É como uma outra agricultura qualquer, tal como plantar arroz, café ou cana de açúcar, e não algo exótico. Trata-se de uma atividade que, feita corretamente, também contribui para a inclusão social, vide o aumento de pessoas, e não empresas, que estimulamos a plantar florestas, em substituição a outras atividades do campo que não dão mais lucro nem detém o êxodo rural para as grandes cidades. Hoje, o Brasil já tem quase três mil pequenos fazendeiros de árvores, enquanto na Suécia elas já são 250 mil. Nada impede que cheguemos a 100 mil em um futuro próximo. Cada um deles com 10 a 20 hectares de florestas plantadas em meio a florestas nativas preservadas.

JB - Poderia se chamar isso de política socioambiental?

CA - Não. Política social quem tem de fazer é o governo. O que estamos fazendo é integrar, agregar pequenos fazendeiros ao nosso negócio. Um negócio bom para nós, à medida que não precisamos empatar capital, comprar mais terras para plantar. E bom pra eles, porque têm o nosso apoio, know-how e garantia de mercado, de compra, quando suas árvores crescerem.

JB - O que o setor espera, então, do governo?

CA - Que haja financiamentos adequados para todo e qualquer brasileiro que queira plantar uma floresta de produção sustentável, ao invés de avançar sobre as florestas nativas. Não se planta uma floresta de eucalipto hoje para colhê-la seis meses depois. Isto leva sete anos para acontecer. Se não tiver estímulo oficial, financiamento apropriado, ninguém vai entrar nesse negócio. É preciso que haja o reconhecimento desta necessidade, por parte dos ministérios da Agricultura e Meio ambiente, vide a experiência bem sucedida do Programa Nacional de Agricultura Familiar [Pronaf].

JB - Não se trata de financiamento para as grandes empresas?

CA - Não. É para os pequenos e médios agricultores. Eles é que precisam ser estimulados a crescer conosco. Nós já nos financiamos, buscamos dinheiro no exterior. O governo brasileiro, inclusive, deveria criar um fundo florestal nacional, como existe no Canadá e nos Estados Unidos, onde quem tem dinheiro na bolsa pode retirá-lo para aplicar no fundo. Seria um ótimo negócio para o país. Existem aplicadores no mundo inteiro que investiriam em coisas a longo prazo que renda dividendos e garantias, não querem ficar somente na bolsa de valores, que é muito volátil.

JB - Porque o setor florestal brasileiro, que o senhor diz ser a resposta para isso, reclama tanto do governo?

CA - Porque temos de desburocratizar o cipoal de leis ambientais contra a nossa atividade. Leis federais, estaduais e municipais que se diferem e competem diferentemente entre si. Mesmo sendo sustentável, para se plantar uma floresta acima de 100 hectares hoje no Brasil, o fazendeiro tem de fazer um relatório de impacto ambiental caríssimo. Para o pequeno agricultor, isso significa uma fortuna que ele não tem. Pior. Depois de conseguir a licença para plantar, tem de conseguir outra para cortar, mesmo o governo sabendo que ele plantou com essa finalidade. É esse entendimento que estamos buscando com o Ministério do Meio Ambiente e que já temos em Minas. O secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, José Carlos Carvalho, que já foi ministro e é engenheiro florestal, está conseguindo simplificar esse processo em seu estado.

JB - Em termos comparativos, quais as vantagens de se explorar uma floresta plantada ao invés de uma floresta nativa?

CA - A plantada rende até 40 metros cúbicos por hectare. Já a nativa, por questões ambientais, dificuldade de transporte e mesmo pela qualidade da madeira comercial, não se maneja mais que sete, oito metros. Numa floresta plantada está tudo concentrado, usa-se menos espaço, menos terra. E se produz tão somente o que se quer.

JB - E a questão da biodiversidade?

CA - Numa floresta nativa, é claro, tem mais biodiversidade. Mas não é verdade que a floresta plantada seja um deserto verde como se diz. Nela é possível se encontrar até 500 tipos diferentes de vida, seja insetos ou animais, e uma diversidade também riquíssima de plantas em seus sub-bosques. Se imaginarmos o consumo de água e floresta nativa, que é desmatada e assoreada para plantar capim e produzir um quilo de carne de boi lá na frente, a floresta plantada ganha um outro significado. Numa floresta de eucalipto, a água da chuva que cai não vai embora, infiltra totalmente e mantém o ciclo ecológico. O consumo de água de uma floresta plantada para produzir uma tonelada de madeira é infinitamente menor do que para produzir um quilo de carne de boi, da ordem de 15 metros cúbicos. Numa floresta plantada também não se usa irrigação, cujo consumo e desperdício de água é fantástico, inimaginável e não criticado pela opinião pública. Ou seja, quando olhamos o meio ambiente não podemos avaliá-lo só pela quantidade de fauna e flora, mas também pelo consumo de água, que é um dos itens mais preciosos e em falta na natureza do planeta e será caríssimo daqui a uns 30 anos.

JB - O que o setor florestal brasileiro pode ganhar com o anunciado mercado internacional de crédito de carbono, incrementado agora pelo Protocolo de Kyoto?

CA - Já estamos com um primeiro projeto na bolsa de Chicago, tentando prever o que vai acontecer. Esse mercado ainda está muito desregulamentado, teórico e com o preço lá embaixo. Na verdade, os países poluidores do Primeiro Mundo querem ganhar esses créditos para aliviar o peso de consciência que têm, mas a preço de banana por parte de países como o nosso. Ainda é cedo. Não queremos nem vamos entregar o ouro. O Brasil tem de ir passo a passo, aprendendo a negociar e a valorizar a riqueza em seqüestro de carbono que temos com as suas florestas, nativas ou plantadas.

JB - Isso também passa pela necessidade da comunicação?

CA - Com certeza. Como tudo na vida, a verdade acaba prevalecendo e isso irá acontecer com o nosso setor, desde que saibamos comunicar a importância estratégica das florestas plantadas para o país. Nós já estamos fazendo o nosso trabalho de buscar o contato com a imprensa, a universidade e o público em geral. Eu não tenho dúvida que, antes de me aposentar, todo o setor, a exemplo da Aracruz, vai virar uma Embratel florestal. E que alguém neste país vai descobrir que precisamos de empresas como as nossas, que são genuinamente brasileiras, têm know-how, tiram da própria terra o seu sustento e são capazes de exportar até 98% da sua produção.

JB - Como assim?

CA - Quem vai levar o nome do Brasil para fora não é o governo Lula nem os políticos, e sim as multinacionais que o fizerem. Vão ser, como já acontece, a Vale do Rio Doce, a Petrobras, a Aracruz, as empresas do nosso setor. O inverso também é verdade. Quem traz os nomes norte-americanos para cá não é o Bush, não é o Clinton, não é ninguém. Mas sim a Coca-Cola, o McDonald, a Microsoft. São essas empresas que estão aqui que dão nome à estratégia de seu país de origem. Nós temos de fazer a mesma coisa. É muito simples. Não tem outro caminho.

JB - A idéia da criação da Abraf vem desse pensamento?

CA - Sim, porque entre nós temos essa diferença também. Esse é o grande problema do setor empresarial de papel e celulose. Nós somos competidores uns com os outros. Nós não podemos sentar numa mesa e ficar fazendo conversinha de político, não. Somos competidores. Muitas vezes, o que é bom para a Aracruz não é bom para a Suzano, pode não ser bom para outras. No que é pré-competitivo estamos tentando achar um denominador comum para lutarmos juntos. Nosso setor tem esta dificuldade. As Ongs, por exemplo, podem se unir, é mais fácil porque não tem nem lei que as proíba disso. Conosco, não. Se eu for para os Estados Unidos para fazer uma reunião de presidentes de empresas, tem sempre três advogados na sala.

O que existe, enfim, de consenso, é que a nossa atividade é ambientalmente correta, economicamente viável e socialmente justa. Nós já internalizamos o conceito da sustentabilidade. O caminho é sabermos comunicar isso.






 
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