Investnews - Gazeta Mercantil - As novas cafeterias paulistanas estão deixando de lado o perfil tradicional de pequena loja - com balcão e banquetas para servir café apressadamente -, para se transformar em espaços confortáveis, com jornais e revistas à disposição, café servido por baristas [atendentes especializados em máquinas da café expresso] e, principalmente, com uma marca de café premium própria, que o consumidor pode saborear ali mesmo ou levar para casa.
Essa nova tendência envolve de grandes empresas como a Cafeera, marca de café para o mercado interno da Ipanema Coffee [Grupo Bozano], a rede Fran's Café e a Café do Ponto, ambas com mais de 80 lojas, até descendentes de 'barões do café' como Marco Suplicy, que acaba de abrir o Suplicy Café, e Renata Esteve, que ao lado do marido, Marco Kerkmeester, inaugurou recentemente a Cafeteria Santo Grão.
O fenômeno está elevando o próprio consumo interno de variedades premium, hoje 6% do total, contra quase nada há até quatro anos.'A cafeteria com uma marca própria de café é um negócio rentável', garante Alexandre Adoglio, diretor de marketing da Ipanema e sócio da Cafeera, que abriu esta semana sua segunda loja em São Paulo, dessa vez em parceria com a própria Ipanema Coffee.
A nova e ampla loja, no bairro do Itaim Bibi, ponto nobre da cidade, tem vários ambientes e inova ao combinar seus 'lattes' e cappuccinos - servidos também na primeira loja, que funciona no bairro do Brooklin desde 2001 - com hábitos bem brasileiros, como o do simples cafezinho e o 'pingado', que podem ser servidos com outras 'brasilidades' como biscoitos de polvilho, biju, sequilhos, geléias e doces caseiros.
Para Adoglio, o sucesso deste tipo de empreendimento está intimamente ligado à qualidade da própria marca. 'Servimos uma seleção dos melhores grãos, 100% arábica, de cinco fazendas do Sul de Minas, pertencentes à Ipanema, maior produtora de cafés especiais do País, com 120 mil sacas/ano, além de ser a primeira empresa nacional a obter a certificação Eurep-GAP.' Na nova loja foram investidos R$ 500 mil.
'O retorno dos investimentos da primeira loja foram rápidos e esperamos que isso se repita', diz. Além de vender o Cafeera nas duas lojas, o produto também vai para restaurantes e empórios sofisticados. O empresário Marco Suplicy, descendente de uma família envolvida com a corretagem do café desde 1879, também criou marca própria para servir na recém-inaugurada Suplicy Cafés Especiais, inspirada nas coffee houses londrinas.
O café utilizado vem de produtores ligados à Associação Brasileira de Cafés Especiais [ABSCA], que conta com só 45 associados, ou tem a qualidade certificada pela Qualicafex, empresa especializada na seleção e avaliação de cafés.
Os clientes também podem adquirir os cafés da loja em grãos ou moídos, armazenados em uma embalagem especial com válvula de alumínio, que impede que o produto entre em contato com o ar e oxide. Todos os funcionários e baristas da Suplicy foram treinados por especialistas, entre eles a consultora de cafés norte-americana Sherri Johns, que trabalhou durante cinco anos na famosa rede Starbucks Coffee e acompanhou a abertura de mais de 80 lojas da marca pelo mundo.
O Suplicy Cafés Especiais vem de seis fazendas, uma delas do grupo Suplicy. Entre elas, quatro são do Sul de Minas, uma do Cerrado e uma da região da Mogiana paulista. 'Não são blends, mas seis opções diferentes de café ', explica Suplicy.O Café Santo Grão é a marca própria do Café e Bistrot Santo Grão, do casal Marco Kerkmeester e Renata Esteve, cuja família é um dos maiores exportadores brasileiros do produto.
Apaixonados pelo assunto e por gastronomia em geral, eles reuniram num só local vários espaços dedicados à bebida e um cardápio de sanduíches e pratos de cozinha contemporânea. A carta de café é, logicamente, um dos destaques com várias bebidas. O cliente interessado pode levar um dos dois blends do Santo Grão para casa, um deles próprio para expresso, mais encorpado, e outro para ser servido com leite, menos ácido.
O Santo Grão sai de cafés provenientes de cinco fazendas de três regiões - Cerrado, Sul de Minas e Mogiana. Além da própria cafeteria, o Santo Grão também começa a chegar a restaurantes conveniados. 'Oferecemos o café, treinamos os baristas e alugamos a máquina de café que estamos importando da Itália. Essas são as con-dições necessárias para se manter a qualidade.'
Há 30 anos no mercado, o Fran's Café, com mais de 80 lojas concentradas na cidade de São Paulo, interior e litoral, além de outras praças como Rio e Curitiba, investiu nos últimos três anos cerca de R$ 5 milhões na profissionalização e valorização do café. As lojas da rede contam com baristas treinados, formados pelo próprio Centro de Treinamento de Baristas do Fran's.
Os investimentos foram feitos também na aquisição de máquinas e equipamentos de última geração e no lançamento da marca própria. O café Fran's Expresso tipo gourmet é vendido em grãos ou moído, em pacotes ou latas, ou então em embalagens com práticos sachês de café expresso ou descafeinado.
Recentemente, o Fran's recebeu do Grupo de Avaliação do Café [GAC], do Sindicato da Indústria do Café do Estado de São Paulo, a descrição de qualidade 'muito boa a excelente'.Uma marca de café premium foi também o primeiro produto que o padeiro, chef e apresentador de TV, Olivier Anquier, lançou com seu nome.
O café vendido em pontos tradicionais estará também no 'Anquier', um misto de confeitaria, café, bistrô e loja de presentes, que será aberta no fim do mês no bairro de Higienópolis, em São Paulo. O café premium Olivier foi desenvolvido em parceria com uma fazenda do Sul de Minas.
Embora as lojas de cafés de marca própria em cafeteria só tenham virado tendência recentemente, o primeiro deles surgiu em 1976. O Café do Ponto foi pioneiro entre as cafeterias com marca própria. Hoje é uma rede de mais de 80 lojas e quiosques.O presidente do Sindicato da Indústria do Café de São Paulo [Sindicafé], Nathan Herszkowicz, vê a proliferação das cafeterias de grife como 'um sinal muito positivo do enobrecimento do produto café no mercado interno'. Para Herszkowicz, tantos investimentos na qualidade do café local são prova de que existe um mercado promissor e rentável para produto premium.
Segundo o Sindicafé, só em São Paulo, das 250 mil sacas de café produzidas por ano, 6% já se destinam aos cafés especiais. 'Há quatro anos, esse índice era zero'. lembra Herszkowicz. 'Além disso, o segmento, apesar do seu preço mais elevado, vem crescendo a uma taxa de 25% ao no estado de São Paulo, contra 2% do café comum'.